Neuroarquitetura

Neuroarquitetura e design biofílico: uma conversa sobre a experiência de habitar

Numa live da Space Xperience, a SX conversa com um neuroarquiteto sobre por que a experiência (e não o tijolo) é o verdadeiro produto da construção, como a neurociência entra no projeto e por que industrialização e biofilia caminham juntas.

Space Xperience9 min de leitura
Arquitetura biofílica com vãos circulares envidraçados e vegetação exuberante, em tons azulados da marca SX: neuroarquitetura e design biofílico

Na nossa primeira live, sentamos para conversar sobre dois dos pilares que movem a Space Xperience e que ainda são pouco discutidos no mercado brasileiro: a neuroarquitetura e o design biofílico. Falamos muito de tecnologia, de industrialização e de casas de catálogo, mas o que está por trás de tudo isso é uma convicção simples: o nosso produto é a experiência, não o tijolo.

Nosso convidado foi Lorí Crízel, arquiteto e urbanista, mestre em conforto ambiental, especialista em neurociências e comportamento humano e doutorando em neuroarquitetura. Pioneiro da neuroarquitetura no Brasil, é presidente da ANFA Brasil (Academy of Neuroscience for Architecture), CEO do Instituto Neuro.Bio.Design e professor de neuroarquitetura no POLI.Design, do Politecnico di Milano. O que segue é uma versão editada do bate-papo, organizada em perguntas e respostas, com a leitura da SX ao final.

Por que a SX abraça a neuroarquitetura?

SX: Toda empresa precisa de uma missão e de uma visão claras para não se perder no caminho. O próprio nome, Space Experience, já diz bastante: o nosso grande propósito é entregar experiência. Esse termo ficou famoso, foi muito usado (até pelo Steve Jobs) e acabou perdendo um pouco de valor. Mas pouca gente tentou aplicá-lo de verdade ao mundo da construção civil. Esse é o nosso desafio: entender o que o cliente quer, como ele gostaria de viver aquele espaço. A gente acredita que o produto é a experiência, não o tijolo. Aliás, o tijolo é justamente o que estamos deixando para trás com a industrialização.

Lorí Crízel: Eu nem trato a SX como uma empresa, porque ela se torna, na verdade, um grande hub: conecta o usuário final, o profissional (arquiteto, designer, especificador) e a indústria da construção civil. O que me deixou muito feliz foi perceber esse encontro de propósitos. Hoje já se fala em Construção 5.0, quando a construção passa a ter o humano como centro da projetação. Isso mudou até as grandes referências. O LEED, que sempre foi um selo bem técnico, focado em eficiência energética, hoje já incorpora perfis do selo WELL, que tratam justamente da humanização dos espaços.

Afinal, qual a diferença entre neuroarquitetura e design biofílico?

SX: É uma dúvida que eu tenho e que imagino ser comum a quem nos acompanha. O que nos chamou a atenção foram os padrões do design biofílico, resumidos em alguns patterns. Gostamos disso porque conseguimos casar esse conceito de padronização com o que já defendemos: tecnologia e industrialização. Fala-se muito de BIM e de inteligência artificial, mas por baixo tudo funciona através de mecanismos padronizados, os algoritmos. Parece mágica, mas por trás há padrão. Na industrialização é a mesma coisa.

Lorí Crízel: O design biofílico já existe há tempos, dentro e fora da arquitetura. Ele ganha força quando o termo neuroarquitetura se populariza: aí ele deixa de ser um conceito e vira uma prática projetual reconhecida mundialmente. A neuroarquitetura é o grande guarda-chuva. Trata de como trabalhar todos os níveis experienciais do humano em qualquer ambiente, e dela se ramificam o neurodesign, a neuroiluminação, o neurourbanismo e o próprio design biofílico.

Antes, o pressuposto era a psicologia ambiental, um campo de observação: a gente precisava de um ambiente construído para observar o comportamento das pessoas e, daí, tirar premissas de projeto. A neuroarquitetura já se apoia em neurociência. É ciência aplicada, com imagens que mostram quais áreas cerebrais são acionadas em cada nível de experiência. Aquilo que a psicologia ambiental via por observação, agora a gente entende o porquê, fisiologicamente. Hoje temos até biossensores, equipamentos que acoplamos nas pessoas para ler essas respostas.

Design biofílico é colocar plantas no ambiente?

Lorí Crízel: Essa é a interpretação errônea do começo. Vegetação é apenas um dos itens. Quando olhamos todas as diagramações possíveis, o design biofílico é muito mais: iluminação natural, ventilação natural, qualidade do ar e, acima de tudo, a organicidade do espaço, o quão acolhedor ele é a um organismo vivo, que somos nós.

Trabalhamos com diretrizes diretas e indiretas. Sempre tentamos usar ao máximo as diretas: tudo que é orgânico, vivo, natural (materiais, luz, ventilação, vegetação). Mas nem sempre dá. Pense num centro cirúrgico: por legislação, não posso ter vegetação nem ventilação natural. Ainda assim, com o design biofílico indireto, uso cores e tipos de iluminação artificial que tornam o ambiente amplamente biofílico. Um exemplo do dia a dia: o design de mobiliário vem ficando mais orgânico, os sofás mais arredondados, as pontas retas saindo. Isso também é design biofílico.

E como isso conversa com a industrialização?

Lorí Crízel: Conversa em tudo, porque as diretrizes são associáveis a qualquer projeto, inclusive o industrializado. E aqui entra um ponto importante sobre padrão: ele não é repetição idêntica, é um padrão de visualização. A gente gosta mais de olhar uma montanha ou uma cordilheira? As montanhas são todas diferentes, mas seguem um padrão, e isso nos é muito convidativo. Uma fachada com volumes, profundidades, texturas e cores variando dentro de um padrão nos parece mais agradável do que uma fachada monótona. Por isso a neuroarquitetura e o design biofílico não precisam ser feitos só de forma única e artística: dá para fazer de forma replicável. E aí a industrialização entra muito bem, até porque muitos materiais já nascem preparados para se integrar ao design biofílico.

SX: É exatamente o que a gente vem sistematizando. O design biofílico é muito usado no design de interiores, mas o nosso propósito é aplicá-lo numa escala maior, a escala da casa. Estudamos padrões para criar peças que possam ser industrializadas e usadas como um catálogo. Através de algoritmos, em vez de limitar, a gente gera N projetos possíveis, sempre com o conceito dos arquitetos que trabalham conosco.

Lorí Crízel: Isso que você descreve é um braço do design biofílico que chamamos de design biomimético: trazer inspirações da natureza para a composição, seja da casa inteira, seja de elementos específicos. Hoje se fala muito em arquitetura parametrizada, e ela nada mais é do que design biomimético feito para padronagem, para ser replicado. Ou seja, quando falamos de industrialização, o design biofílico já entrou nela há muito tempo, pela parametrização.

Isso é novo mesmo, ou a história já dava pistas?

SX: Nascem muitas modas e muitos termos, mas eu acredito no propósito final, que é construir espaço. Nós, e eu falo como arquiteto e engenheiro, às vezes perdemos esse foco. Le Corbusier já falava do traçado regulador, e o que era aquilo senão industrialização e biofilia? Olhando ainda mais para trás, perto das minhas origens, uso um exemplo que adoro: o Coliseu de Roma. É uma arquitetura industrializada, são vários arcos, um atrás do outro, e ao mesmo tempo é biofílica, porque as curvas são um dos padrões que fazem mímica com a natureza. Antiga, industrializada e biofílica ao mesmo tempo.

Onde a plataforma da SX entra nessa história?

SX: A plataforma já está no ar, o link está no nosso Instagram. Ali estão os primeiros experimentos, que chamamos de casas. Digo "experimentos" porque, junto com o Instituto Neuro.Bio.Design, ainda vamos definir e detalhar quais são os padrões e aplicá-los às casas comercializadas na plataforma. Nosso intuito final é comunicar: comunicar o projeto, ajudar as empresas a comunicar e a vender.

Lorí Crízel: E por isso a plataforma é tão importante: ela não só conscientiza, ela permite aplicar. É o encontro das três pontas que movem o setor. O usuário final, que valida não só a agilidade, mas principalmente a qualidade, e que ganha mais do que uma casa, ganha um lar, com a adaptabilidade da industrialização e a possibilidade real de personalização (cada família é uma família). Os profissionais de arquitetura, design e engenharia, que buscam referenciais para trabalhar. E a indústria da construção. Some-se a isso um papel educador: muitos profissionais no Brasil buscam essa informação de forma dispersa, e vão encontrar ali um lugar para se capacitar, inclusive sobre construção modular, que ainda é pouco conhecida por aqui.

O que vem a seguir

SX: O desafio é grande, e a plataforma foi pensada para educar o mercado. Tivemos um cuidado enorme com os termos e com a experiência do usuário em toda a jornada, da busca do terreno até a personalização da casa. Deixo um spoiler: junto com o Instituto, estamos trabalhando também selo e certificação. A ideia é coletar cada vez mais dados pela plataforma, ouvir o feedback do próprio usuário e, com isso, validar o sistema e o selo, para que seja algo compartilhado, do qual todo mundo faça parte.

Lorí Crízel: Atitudes assim começam a tirar o Brasil daquela ideia de que tudo acontece primeiro lá fora e só depois chega aqui. Com essa visão, a gente já caminha de igual para igual com o mundo na industrialização, colocando os profissionais brasileiros no mesmo patamar dos que atuam lá fora.

A leitura da SX

Esta conversa resume, na prática, a tese que sustenta o nosso trabalho. A construção civil discutiu custo por tempo demais. A oportunidade está em migrar para a era do valor, e a experiência de quem habita é a medida desse valor. A neuroarquitetura dá o embasamento científico (o porquê fisiológico de um espaço acolher ou tensionar), e o design biofílico oferece o repertório projetual para materializar esse acolhimento.

O ponto que mais nos interessa é o encontro entre padrão e experiência. Longe de empobrecer o projeto, a padronização, quando lida como a natureza faz (montanhas que se repetem sem serem idênticas), é justamente o que torna a industrialização compatível com espaços que emocionam. É isso que permite a virada de chave: sair da lógica do tijolo e entrar na lógica da experiência, guiando o usuário rumo às escolhas mais assertivas para ele, sem abrir mão da personalização.

No fim, o arquiteto segue sendo a interface entre as pessoas e o espaço, e a SX é o hub que conecta essa interface à indústria e ao usuário, com transparência de custo, qualidade conferida e prazo definido. Da era dos custos para a era do valor.

Quer materializar um pouco do que conversamos aqui? Conheça a plataforma SX ou explore o catálogo de casas.

NeuroarquiteturaBiophilic designConstrução industrializadaExperiênciaEntrevista